O que acontece na vida de uma criança com deficiência quando escola, família e comunidade trabalham juntas? A trajetória de Pedro Felipe Caponi Faleiro, estudante do Colégio Militar Pedro Xavier Teixeira, em Goiás, Brasil, oferece uma resposta poderosa.
Pedro recebeu seu primeiro diagnóstico de deficiência visual com apenas um ano de idade, graças à atenção de seu avô, que era oftalmologista. Com o tempo, perdeu a visão de um olho e, depois, do outro. Passou por várias cirurgias e, aos sete anos, já era legalmente considerada uma criança com cegueira. Sua mãe, Patricia Caponi, relembra como se sentiu abalada na época, sem esperanças para o futuro.
Durante grande parte de sua infância, Pedro estudou em escolas particulares. Aos 12 anos, começou a frequentar um centro especializado em sua cidade, onde aprendeu a usar recursos como a bengala e o sistema Braille, o que lhe permitiu participar ativamente da vida escolar. Por muito tempo, Pedro contou com apoio individualizado — sempre acompanhado por um profissional de apoio. Mas ainda faltava algo essencial: estratégias e conhecimentos específicos que o ajudassem a se desenvolver com autonomia.
Nova Escola. Novas Oportunidades.
Em 2024, Pedro começou a estudar na escola pública estadual Colégio Militar Pedro Xavier Teixeira — o mesmo ano em que a Perkins iniciou seu trabalho na instituição por meio da Abordagem do Programa Modelo, em parceria com a Secretaria de Educação de Goiás. A presença constante da equipe da Perkins, atuando em parceria com professores, gestores escolares e a família, trouxe mudanças significativas. Por meio de formações, mentoria e uma escuta ativa, os educadores passaram a enxergar não apenas a deficiência, mas todo o potencial de Pedro como estudante.
Desde o início da colaboração entre a Perkins e a escola de Pedro, o principal objetivo tem sido transformar as práticas pedagógicas — incentivando os educadores a desafiar e apoiar Pedro e outros estudantes com deficiência, reconhecendo e valorizando suas habilidades. Essa abordagem promove autonomia, autoconfiança e uma crença compartilhada de que estudantes com deficiência são plenamente capazes de atingir os mesmos objetivos que seus colegas — quando recebem o apoio adequado.
Pedro é um exemplo desse progresso. Além de dominar o Braille, ele utiliza com habilidade um notebook adaptado, com aplicativos que o ajudam a acompanhar os conteúdos das aulas. O que antes era visto como uma adaptação especial, hoje é reconhecido pelos professores como uma ferramenta essencial de aprendizagem. Graças às reflexões profissionais e ao acompanhamento da Perkins, o planejamento pedagógico tornou-se cada vez mais acessível e alinhado às necessidades de Pedro — garantindo sua participação ativa e seu progresso educacional.

Em seu primeiro ano na nova escola, Pedro recebeu homenagens e medalhas por seu desempenho acadêmico. Hoje, ele é amplamente reconhecido por seu compromisso com os estudos. Como explicam suas professoras Suzana Maria de Galvão e Renata de Souza Moraes Silva, que estão sendo formadas pela Perkins International Academy:
“Pedro demonstra um rendimento acadêmico excepcional, destacando-se em relação a outros estudantes no processo de aprendizagem. Suas produções textuais são excelentes, demonstrando maestria na escrita e reflexões profundas.”
Maria e Renata
Mas a transformação não se limitou ao desempenho acadêmico. Pedro também desenvolveu amizades verdadeiras. No passado, ele e dois colegas com deficiência passavam a maior parte do tempo isolados na sala de recursos — um espaço dedicado ao atendimento educacional especializado. Hoje, os três são vistos conversando animadamente nos corredores, combinando passeios e até fazendo noites do pijama juntos. Um de seus grandes amigos, Israel Jorge, conta: “Ser amigo do Pedro é uma experiência prazerosa; ele é educado, gentil e sabe quando é o momento certo de se expressar. Se ele precisar de qualquer ajuda, pode contar comigo sem pensar duas vezes.”

A família de Pedro: uma fonte de força e inspiração

A família de Pedro tem um papel central em sua trajetória. Sua mãe decidiu estudar nutrição para melhor lidar com as severas alergias alimentares do filho. Sua irmã, Sarah, é estudante de direito e uma defensora da inclusão. Ela conta que Pedro confia tanto nela que a chama de seu ‘Google’: “Vejo que essa confiança vem da minha forma de ser com ele. Sou mais rígida em situações que considero essenciais. Ele não deve deixar que os outros ditem o rumo da vida dele.”
Inspirada pela vivência com o irmão, Sarah também passou a apoiar colegas com deficiência visual na sua universidade e a promover a inclusão no ambiente acadêmico.
Pedro, por sua vez, tem sonhos grandes — e bem claros. Quer ser juiz e dar uma vida confortável para os pais. Também deseja um mundo mais acessível e consciente:
“Espero que as pessoas não julguem um livro pela capa, vendo apenas a deficiência e, por isso, considerando alguém incapaz. É preciso que os educadores considerem as necessidades dos estudantes e enviem as atividades com antecedência. Também é importante conscientizar sobre os riscos de obstáculos nas calçadas, como vasos de plantas, para quem não pode enxergar.”
Pedro
Além do excelente desempenho acadêmico, Pedro demonstra um forte espírito empreendedor. Todos os dias, após as aulas, ele troca o uniforme no carro da família e vai até o portão da escola para vender bombons caseiros — cuidadosamente preparados com sua mãe em casa. Hoje, Pedro vende seus bombons tanto presencialmente quanto por encomenda, demonstrando organização, autonomia e visão de negócio muito além da sua idade.
A trajetória de Pedro ilustra o que se torna possível quando os estudantes são apoiados por famílias amorosas e comprometidas, guiados por professores capacitados e fortalecidos, quando há uma parceria real entre escola e família, e quando a comunidade escolar valoriza as forças de cada criança. Com colaboração e a crença no potencial de todos os alunos, os sonhos deixam de ser esperanças distantes — e passam a se tornar planos reais. A história de Pedro é uma inspiração para todos que acreditam que a educação pode promover pertencimento por meio de uma inclusão de fato verdadeira.

