Desde 2023, a Escola Municipal Raimunda de Lima Guedes, em colaboração com a Perkins e a Secretaria Municipal de Educação de Macapá, vem fortalecendo suas práticas inclusivas para estudantes com cegueira e baixa visão.
Por meio da formação contínua e do apoio da Perkins, a instituição transformou suas rotinas pedagógicas, garantindo acesso, autonomia, participação e reais oportunidades de aprendizagem para os estudantes com deficiência visual.
Essa colaboração tem sido um exemplo de como construir uma educação pública de qualidade para estudantes com deficiência. Ao adotar o projeto de Programa Modelo da Perkins, a Escola Raimunda de Lima Guedes tornou-se uma referência na transformação de práticas educativas na comunidade.
Alfabetização flexível para ampliar a participação e a autonomia
Um dos avanços mais significativos na trajetória desta escola foi o processo de alfabetização em Braille de Ana Beatriz, uma aluna com cegueira total. Com base no monitoramento e nas orientações da equipe da Perkins no Brasil, a equipe do Atendimento Educacional Especializado (AEE) sentiu-se respaldada para estruturar o processo de alfabetização, partindo da identificação de pequenas palavras até avançar, gradualmente, para frases e orações complexas. Esse progresso permitiu que a estudante participasse ativamente das atividades em sala de aula, com propostas adequadas à sua idade e ano escolar.

Paralelamente, foi desenvolvido um trabalho de orientação e mobilidade para apoiar a estudante no uso da bengala como ferramenta de independência. Ao longo do acompanhamento do terceiro ao quinto ano, a aluna expandiu significativamente sua participação nas aulas, demonstrando que a alfabetização em Braille, combinada com estratégias de autonomia, transforma a experiência escolar.
De acordo com Ana Paula, professora de Ana Beatriz, o início da parceria com a Perkins, que incluiu formação, mentoria e visitas, foi um ponto de virada importante para o progresso da estudante. Essa evolução reforça o papel do programa em enxergar o desenvolvimento integral do estudante.
Compreendo que o nosso objetivo principal não se traça somente no processo de ensino e aprendizagem, mas que a educação vai além disso, especialmente com crianças com necessidades específicas, trazendo avanços também para a vida funcional do estudante.
Ana Paula, professora na escola Raimunda Lima Guedas

Recursos personalizados para baixa visão
As respostas pedagógicas variam de acordo com as necessidades de cada estudante. No caso de Efraim, um aluno com baixa visão que também faz parte da Escola Raimunda de Lima Guedes, o processo de alfabetização exigiu estratégias específicas de acessibilidade. A formação da Academia Perkins capacitou a equipe do AEE a atuar de forma colaborativa com os professores do ensino regular, identificando os melhores recursos visuais.
Para garantir o acesso do estudante à leitura e à escrita, foram adotados materiais com fontes ampliadas, além da definição do local ideal de assento em sala de aula, controle de iluminação, uso de plano inclinado, lupa, lápis 3B e régua de leitura (tiposcópio). Esses recursos respeitaram o resíduo visual do aluno e ampliaram suas possibilidades de autonomia e participação no cotidiano escolar.
A capacitação da Perkins permitiu que a equipe realizasse uma avaliação funcional da visão precisa. A partir desse diagnóstico, os professores do AEE puderam compartilhar com os professores do ensino regular as ferramentas exatas que apoiariam o processo de alfabetização do estudante.
Essa articulação mútua foi o diferencial do programa. A colaboração entre todos os profissionais da escola, e não apenas dos professores de educação especial, confirmou a visão de que “o trabalho junto aos professores do ensino regular é fundamental para que o processo inclusivo aconteça”, reitera a professora Ana Paula.

Além da escola: o envolvimento familiar no programa
Além de apoiar os educadores, a formação da Perkins orientou a escola sobre a importância de aproximar as famílias do processo educativo, consolidando uma parceria sólida para o desenvolvimento dos estudantes.
Essa mudança transformou a rotina nas escolas e nos lares. Antes da chegada do programa, a rotina escolar da aluna Ana Beatriz era marcada pelo isolamento e pelo desinteresse, uma realidade que mudou após a capacitação da equipe pedagógica.
O impacto do programa também levou à autonomia dentro de casa. A mãe da estudante destaca que o aprendizado do Braille, do Soroban e das técnicas de orientação e mobilidade permitiram que sua filha evoluísse tanto na socialização quanto na independência.
Para garantir que esse progresso continuasse fora da escola, a família também foi incluída nas formações:
“Eu também participei de cursos e aprendi várias técnicas com materiais simples para utilizar em casa, dando seguimento ao trabalho da escola e sabendo exatamente como ajudá-la.”
Rúbia Braule Santos, mãe de Ana Beatriz
Um legado de transformação coletiva
Ao longo do projeto, a parceria entre a Perkins, a Secretaria Municipal de Educação de Macapá e a Escola Municipal Raimunda de Lima Guedes expandiu a compreensão sobre a importância da colaboração com diversos atores parceiros.
Mais do que transformar a realidade de suas próprias salas de aula, a unidade escolar passou a se reconhecer como um agente multiplicador de conhecimento inclusivo para o município. A experiência demonstrou que, quando os profissionais contam com formação e apoio adequados, os estudantes com deficiência podem desenvolver todo o seu potencial, criando condições para que aprendam a partir de uma abordagem de qualidade.
O sucesso dessa jornada prova que a verdadeira inclusão não se faz de forma isolada, mas sim através da união entre escola, família e comunidade pedagógica.
